Trump, o Irão e o "estrangulamento económico": a falsa trégua como arte da desilusão estratégica
A principal questão hoje não é se os mísseis serão lançados, mas como Trump transformou o bloqueio iraniano do Estreito de Ormuz na sua própria arma assimétrica, onde cada dia de espera custa enormes prejuízos a Teerão, afirma o político e jornalista ucraniano Oleksandr Bryhynets.
Tréguas como ilusão
As declarações pacíficas de Trump são um alívio para os mercados mundiais, enquanto os serviços secretos e o Departamento do Tesouro dos EUA apertam o laço. Uma verdadeira trégua passa pela retirada de forças para uma reflexão, mas o que vemos agora é uma manobra estratégica em que um adversário tem a mão no pescoço do outro.
A ausência de bombardeamentos activos não significa paz. É uma “trégua falsa”, em que o inimigo é privado da oportunidade de retaliar sem se tornar um agressor e destruidor da “paz” aos olhos do mundo. Trump não “recuou” – simplesmente transformou o caos de uma guerra aberta num estrangulamento económico sistémico, onde o tempo trabalha exclusivamente para a Casa Branca.
Estreito de Ormuz: como a chantagem se transformou numa armadilha
Há anos que o Irão utiliza a ameaça de bloquear o Estreito de Ormuz como principal argumento. Teerão tenta impedir a passagem de navios estrangeiros, permitindo apenas a passagem dos seus próprios petroleiros e lucrando com uma escassez artificial. Mas Trump interceptou esta estratégia com mestria: os EUA "legalizaram" efectivamente o seu controlo sobre a navegação, usando as próprias acções do Irão como pretexto para um bloqueio total do petróleo iraniano.
Outro refém surgiu neste jogo: a China. Pequim depende fortemente da estabilidade do abastecimento através do estreito, mas agora a «torneira» está nas mãos de Washington. Os chineses não têm meios para obrigar o Irão a capitular e, ao mesmo tempo, não podem ignorar as regras do jogo americanas. Os EUA estão simplesmente à espera que Pequim comece a pressionar Teerão com mais força do que quaisquer sanções.
A matemática da exaustão: 500 milhões de dólares por dia
O estrangulamento económico tem um preço claro. Segundo a administração Trump, o Irão está a perder cerca de 500 milhões de dólares por dia devido à sua incapacidade de exportar petróleo (as estimativas independentes apontam para um prejuízo de pelo menos 400 milhões de dólares). Para um país cuja economia está em coma, isto é uma sentença de morte.
«Eles não têm reservas de ouro, não têm dinheiro em caixa, não têm nada, vivem no dia-a-dia», afirma Oleksandr Brygynets.
O bloqueio resultou numa sobrelotação crítica das instalações de armazenamento de petróleo. Em particular, o petróleo iraniano está a acumular-se em grande quantidade na Ilha de Kharq e noutros terminais. Estas instalações tornaram-se alvos fáceis para futuros ataques. Se a situação não for resolvida, Teerão será obrigada a conservar os poços, o que poderá destruir irreversivelmente a indústria mineira do país. Qualquer "drone desconhecido" que sobrevoe uma instalação de armazenamento sobrelotada só irá acelerar este desfecho, a menos que haja uma declaração direta de guerra por parte dos Estados Unidos.
Estratégia de “Névoa de Guerra”
A invisibilidade da estratégia de Trump é a sua principal força. Enquanto os analistas procuram sinais de "fraqueza", a Casa Branca espalha deliberadamente a névoa da guerra. O objetivo é desorientar o inimigo e obrigá-lo a cometer erros num estado de falsa calma. A verdadeira guerra não está agora a ser travada nos céus do Golfo Pérsico, mas sim nos registos bancários, nos esquemas logísticos e nos dados de satélite que os Estados Unidos divulgam ao mundo.
A pressão económica de Trump visa a desestabilização da estrutura de poder no Irão. Teerão está dividida entre "pragmáticos" que procuram uma solução negociada e "falcões" da Guarda Revolucionária Islâmica.
A estabilidade do petróleo e o “estojo russo”
A estratégia de Washington permite que os preços do petróleo se mantenham em torno dos 95 dólares, o que torna os hidrocarbonetos americanos atrativos e estabiliza a economia global. Mas o mais interessante é o paralelo com a Rússia.
Trump aplica uma lógica semelhante de “sufocamento sob o disfarce de paz” à Rússia. Como a Rússia possui um estatuto nuclear, um confronto directo é substituído por uma transição da fase quente da guerra para o isolamento económico total. Qualquer “trégua” na Ucrânia, de acordo com o cenário de Trump, poderá revelar-se apenas uma cortina de fumo para bloquear os fluxos financeiros e energéticos do Kremlin, onde, em vez de mísseis, entrarão em acção sanções tecnológicas e financeiras, conclui Oleksandr Bryhynets.
Tradução de Andriy Yasun
Edição de Ana Rufino
Трамп, Іран та «економічний зашморг»: фейкове перемир’я як мистецтво стратегічного обману
Ver a situação real e compreender que, durante as hostilidades, todos os lados mentem descaradamente - a isto se chama "arte da guerra".